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A música é o Five O, dos James. Poema do Cesariny.
E sete anos depois, as mesmas inquietações.

A música é o Five O, dos James. Poema do Cesariny.
E sete anos depois, as mesmas inquietações.
Desenho o teu perfil numa toalha de papel de um restaurante. À minha frente olhas o rabisco e não entendes o que foi reproduzido. Voltas a cara para outro lado na expectativa de que inicie uma explicação detalhada do meu impulso, mas eu limito-me a deixar cair a caneta e a pegar na chávena de café desviando o olhar para alguém sentado na mesa ao lado.
Na distância do olhar percebo quão diferentes são as nossas paixões.

Se são assíduos de séries televisivas americanas é muito provável que já tenham tido contacto com algumas músicas deste songwriter britânico chamado Alexi Murdoch. A faixa mais popular do seu albúm Time Without Consequence intitula-se Orange Sky. Aqui fica a letra da faixa Song For You.
Song For You
Alexi Murdoch
so today, i wrote a song for you
cause a day can get so long
and i know it´s hard to make it through
when you say there´s something wrong
so i´m trying to put it right
cause i want to love you with my heart
all this trying has made me tight
and i don´t know even where to start
maybe that´s a start
cause you know it´s a simple game
that you play filling up your head with rain
and you know you’ve been hiding from your pain
in the way, in the way you say your name
and i see you hiding your face in your hands
flying so you won´t land
you think no one understands
no one understands
so you hunch your shoulders and you shake your head
and your throat is aching but you swear
no one hurts you, nothing could be said
anyway, you´re not here enough to care
and you´re so tired you don´t sleep at night
as your heart is trying to mend
you keep it quiet but you think you might
disappear before the end
and it´s strange you cannot even find
any strength to even try
to find a voice to speak your mind
when you do all you want to do is cry
well maybe you should cry
and i see you hiding your face in your hands
talking bout far away lands
you think no one understands
listen to my hands
and all of this life
moves around you
for all that you climb
you´re standing still
you are moving too
you are moving too
i will move with you
Edward Hooper
New York Movie, 1939
No silêncio fico mais próximo do que poderei um dia vir a ser.
No silêncio o sonho não tem limites.
Nas raras manhãs em que acordo cedo, um dos pequenos prazeres que me concedo é a visita à padaria do bairro. Como é pouco frequente conseguir fazê-lo, sou surpreendida a cada vez por uma cara nova atrás do balcão (o que me leva a questionar se esta rotatividade das funcionárias se deverá a uma estranha política empresarial do estabelecimento, ou antes à falta de jeito das senhoras).
Assim, fui conhecendo uma galeria de personagens que evoluiu da matrona com o maior buço/barba de Benfica, feito certamente alcançado pelo uso continuado da gillette do devoto esposo, até à brasileira do nordeste cujos atributos físicos indiciavam ser outra a sua fonte principal de rendimento. Durante os últimos dias, e dada a crescente assiduidade destas minhas visitas matutinas, fui conhecendo a mais recente contratação: a mulher biónica.
Duvidei que existisse criatura mais funcional e adesivada ao cumprimento da rotina que aquela. Tudo nela era mecanizado, os movimentos sucediam-se de modo sincrónico e repetido, deslocando-se no pequeno espaço atrás do balcão sempre a três tempos e, vezes houve, em que me pareceu impossível a concreta existência de matéria humana por debaixo da imaculada bata branca. Convicta de que a emoção nunca habitaria aquele corpo e de que lhe estava vedada a experiência da genuinidade do sentimento, eis que me surprendo ao olhar para um dos cantos do balcão.
O título, em letras enormes, salta à vista: “Adeus, Janette”. Na capa, apenas o perfil de uma mulher, enquanto os seus longos cabelos cobrem um fundo verde. E eu que imaginava a mulher biónica sempre imóvel na ausência de pedidos de carcaças, sempre despovoada quando não enchia sacos de pão, percebo que a suspensão da sua vida é preenchida pelos dramas da Janette: uma sobrevivente da II GM, de nome Tanya Pojarska, cuja infância de abusos sexuais se transformou numa adultez onde é rainha de um vasto império de alta costura (disputado agora pelas suas duas filhas, víboras de uma maldade inaudita e que tudo fazem para trapacear a pobre Janette), havendo ainda tempo para uma meia irmã, Lauren, que procura por todos os meios a queda da deusa de leste.
E é com um sorriso que imagino a mulher biónica a deslocar-se neste mundo de luxúria afortunada, de intrigas e de traições anunciadas. Porque se as horas se limitam a cinco metros quadrados de azulejos brancos e cheiro a farinha, até eu gostaria de ser a Janette.
Fazer uma hierarquia de medos não é, de todo, tarefa fácil: não porque os tenha de forma substancialmente larga, mas antes por ser um tipo de reflexão que rapidamente se torna ingrata (pelo óbvio que lhe está associado). Ainda que a maioria das razões que me descompassam o ritmo cardíaco estejam num singular contínuo de homogeneidade, não posso evitar concluir que há uma situação que tem adquirido um estatuto primordial: a viagem de avião.
O avolumar de notícias, durante esta última semana, sobre o acidente aéreo com o Airbus A320 da TAM em São Paulo, reacendeu a minha ansiedade: inquietação que se tem traduzido em sonhos repetidos nos quais estou a bordo deste vôo e numa pesquisa mórbida sobre todos os factos relacionados com as causas do desastre.
Sempre que entro no raio de um avião, sou confrontada com a iminência da minha própria morte. Passam-me pela cabeça imagens dantescas de explosões, gritos, incêndios, naufrágios, invade-me a sensação de queda precipitada e infinita, sem fim à vista. O meu apocalipse privado em modo celeste.
Claro que toda esta experiência subjectiva contrasta com a impassividade dos membros da tripulação, bem como com a tranquilidade aparente dos restantes passageiros e se, até hoje, tenho sobrevivido ao pânico da experiência, devo agradecer por isso aos laboratórios Pfizer.
Mas, se a minha espiritualidade (ou falta dela) o permitisse, acreditaria que este doloroso confronto com a minha própria finitude, é um modo privilegiado de aceder a uma pacificação que desconheço:
“The Way of the Samurai is found in death. Meditation on inevitable death should be performed daily. Every day, when one’s body and mind are at peace, one should meditate upon being ripped apart by arrows, rifles, spears and swords, being carried away by surging waves, being thrown into the midst of a great fire, being struck by lightning, being shaken to death by a great earthquake, falling from thousand-foot cliffs, dying of disease or committing seppuku at the death of one’s master. And every day, without fail, one should considerer himself as dead. This is the substante of The Way of the Samurai.”
(from Ghost Dog)

Ouvir Nitin Sawhney numa madrugada de Verão é qualquer coisa de único, especialmente se for acompanhado por um bom vinho tinto (ou o que vos aprouver) e uma boa conversa.
A receita é fácil de executar. Experimentem!
A música cuja letra podem ler abaixo é do álbum Beyond Skin, que é simplesmente um dos melhores discos de sempre. Tenho-o há cerca de sete anos e volta e meia vou revisitá-lo por uma questão de necessidade, de nutrição da alma.
Immigrant
Also heavily advertised in the local newspapers in Delhi
That they are encouraging for people to come down here and work.
And then we went to the embassy and they showed us
Kew Garden pictures and pictures of the various parts of England,
That it is all that beautiful and everything is just right
And that’s what we just applied for the voucher.
You burn my flame within your hands
You know when my destiny falls
This time has insecurity
I feel, makes me restless inside
Will you take me there
To a distant place I’ve never been before
I could leave this world
I could follow you like oceans to the shore
You could take me there
Make the rivers of my mind flow to my dreams
You hold your secrets from my eyes
You see where the furthest rain falls
The day breaks over in the streams
You know where my rivers will flow
Will you take me there
To a distant place I’ve never been before
I could leave this world
I could follow you like oceans to the shore
You could take me there
Make the rivers of my mind flow to my dreams
And I dream of places far from here
And I call your name into the wind
And I wish the night would take me to another world
Where no one knows a face or asks your name
Will you take me there
To a distant place I’ve never been before
I could leave this world
I could follow you like oceans to the shore
You could take me there
Make the rivers of my mind flow to my dreams
Make the rivers flow
Will
Will you take
Oh yeah
Will you take me there?
Will you take me there?
Oh Yeah
Take me there
Take me there
Take me there, yeah
Take me there, yeah yeah
Oh, Take me there
Will you take?
Will you take?
Me there
Take me there
Take me there
Take me there, yeah
Take me there, yeah yeah
Take me there
Take me there
Take me there, yeah
Take me there, yeah yeah
Make the rivers flow X7
Sou alguém que espera pela maré, alguém que gosta de sentir os dedos a divagarem pelas letras enquanto tenta encontar a palavra certa para o momento menos certo, sou por vezes aquele que tem a vontade de ter vontade, de recriar um mundo que lhe possa fazer sentido, sem que com isso interfira com os mundos dos outros.
Sou simplesmente mais um ser complexo no meio de tantas pessoas que me fazem acreditar como é bonito viver.