Nas raras manhãs em que acordo cedo, um dos pequenos prazeres que me concedo é a visita à padaria do bairro. Como é pouco frequente conseguir fazê-lo, sou surpreendida a cada vez por uma cara nova atrás do balcão (o que me leva a questionar se esta rotatividade das funcionárias se deverá a uma estranha política empresarial do estabelecimento, ou antes à falta de jeito das senhoras).
Assim, fui conhecendo uma galeria de personagens que evoluiu da matrona com o maior buço/barba de Benfica, feito certamente alcançado pelo uso continuado da gillette do devoto esposo, até à brasileira do nordeste cujos atributos físicos indiciavam ser outra a sua fonte principal de rendimento. Durante os últimos dias, e dada a crescente assiduidade destas minhas visitas matutinas, fui conhecendo a mais recente contratação: a mulher biónica.
Duvidei que existisse criatura mais funcional e adesivada ao cumprimento da rotina que aquela. Tudo nela era mecanizado, os movimentos sucediam-se de modo sincrónico e repetido, deslocando-se no pequeno espaço atrás do balcão sempre a três tempos e, vezes houve, em que me pareceu impossível a concreta existência de matéria humana por debaixo da imaculada bata branca. Convicta de que a emoção nunca habitaria aquele corpo e de que lhe estava vedada a experiência da genuinidade do sentimento, eis que me surprendo ao olhar para um dos cantos do balcão.
O título, em letras enormes, salta à vista: “Adeus, Janette”. Na capa, apenas o perfil de uma mulher, enquanto os seus longos cabelos cobrem um fundo verde. E eu que imaginava a mulher biónica sempre imóvel na ausência de pedidos de carcaças, sempre despovoada quando não enchia sacos de pão, percebo que a suspensão da sua vida é preenchida pelos dramas da Janette: uma sobrevivente da II GM, de nome Tanya Pojarska, cuja infância de abusos sexuais se transformou numa adultez onde é rainha de um vasto império de alta costura (disputado agora pelas suas duas filhas, víboras de uma maldade inaudita e que tudo fazem para trapacear a pobre Janette), havendo ainda tempo para uma meia irmã, Lauren, que procura por todos os meios a queda da deusa de leste.
E é com um sorriso que imagino a mulher biónica a deslocar-se neste mundo de luxúria afortunada, de intrigas e de traições anunciadas. Porque se as horas se limitam a cinco metros quadrados de azulejos brancos e cheiro a farinha, até eu gostaria de ser a Janette.