sonho 792
A persistência deste sonho começa a incomodar-me.
Estamos sentados num banco de trás de um carro e há tanto espaço entre nós que mal nos tocamos. Junto aos pés, duas caçadeiras (ou espingardas, nunca percebi bem a diferença). Esperamos por alguém que nunca vai chegar e, em silêncio, estendes-me a tua mão. O rosto do condutor é-me vagamente familiar, sei que já nos cruzámos numa rua, numa sala, num canto. O que mais me surpreende é a forma como está vestido: tal como um robin hood de antologia cinematográfica, ostenta uns elegantes collants verdes, uma capa e um fabuloso chapéu, com direito a penas de uma qualquer ave em vias de extinção.
O barulho do motor é tudo e espreito pela minúscula janela que tenho junto a mim: água por todos os lados, lagos ou mar, tanto faz, uma imensidão de nada que me invade sem pedir. O condutor fala num tom monocórdico, baixo, como se não estivéssemos ali. Por vezes aponta para os lados e aí a sua voz é mais perceptível, ainda que fale numa língua que me é desconhecida. Aproximas-te de mim e, em sussurro, contas-me a tua vida.
Apetece-me entregar o meu corpo a toda aquela água e não a ti, essa tua voz tão perto, o espaço cada vez mais apertado, a língua estranha do homem de verde. Queria que te calasses, o que é que me interessa isso agora? Continuas a murmurar tudo o que nunca foi dito, tudo o que nunca deveria ter sido dito. Gosto tanto de ti que te podia amar. Sufoco nessas palavras tão tuas e o ar à volta pesa tanto, irrespirável.
O impulso é agarrar na caçadeira. Encosto o cano comprido à tua cabeça, olhas-me como se soubesses o que vou fazer e sorris, sem nunca parares de falar. O som do disparo preenche-me as mãos, ainda a tremer, mas não é suficiente para abafar a ladainha desconcertante do condutor. Rapidamente aponto-lhe a arma e disparo novamente, como se não soubesse fazer outra coisa O estranho homem permanece imóvel e a voz perturbante continua a ecoar por todo o lado. Apercebo-me que nunca o poderia calar: não passa de um manequim de loja dos anos 60, é uma cassete que me fala. Stop. Finalmente o silêncio.
Lembro-me de olhar para ti mas, claro, já não estás comigo. Ao meu lado, uma imensidão de pequenos vidros coloridos ocupa o que já foi o teu lugar. Agarro num deles e encosto-o à janela, a luz reflecte em mim aquilo que já foi toda a tua beleza. Tiro do bolso um minúsculo saco vermelho e guardo tudo o que restou da nossa história, encho-o com os vidrinhos e, sempre que pego num, corto o dedo. Irónico, ser o meu sangue a unir o que sobrou de ti.
Na imagem a seguir, estou numa estrada que dificilmente terá fim e pela qual avanço, a pé, como se tivesse um destino. Numa das mãos, um anel. Na outra, aperto com força o saco vermelho. Ao fundo lê-se “route 66″.
Magnífico. O Kerouac que me perdoe…
M.
ola! preciso desesperadamente do poema que escreveste de António Alexandre completo, porque não o consigo encontrar em lado nenhum… se fosse possivel colocar-lo aqui, mesmo que temporariamente, agradecia imenso.
Obrigada e parabens pelo blog.