Friday, June 29, 2007

sonho 792

A persistência deste sonho começa a incomodar-me.

Estamos sentados num banco de trás de um carro e há tanto espaço entre nós que mal nos tocamos. Junto aos pés, duas caçadeiras (ou espingardas, nunca percebi bem a diferença). Esperamos por alguém que nunca vai chegar e, em silêncio, estendes-me a tua mão. O rosto do condutor é-me vagamente familiar, sei que já nos cruzámos numa rua, numa sala, num canto. O que mais me surpreende é a forma como está vestido: tal como um robin hood de antologia cinematográfica, ostenta uns elegantes collants verdes, uma capa e um fabuloso chapéu, com direito a penas de uma qualquer ave em vias de extinção.

O barulho do motor é tudo e espreito pela minúscula janela que tenho junto a mim: água por todos os lados, lagos ou mar, tanto faz, uma imensidão de nada que me invade sem pedir. O condutor fala num tom monocórdico, baixo, como se não estivéssemos ali. Por vezes aponta para os lados e aí a sua voz é mais perceptível, ainda que fale numa língua que me é desconhecida. Aproximas-te de mim e, em sussurro, contas-me a tua vida.

Apetece-me entregar o meu corpo a toda aquela água e não a ti, essa tua voz tão perto, o espaço cada vez mais apertado, a língua estranha do homem de verde. Queria que te calasses, o que é que me interessa isso agora? Continuas a murmurar tudo o que nunca foi dito, tudo o que nunca deveria ter sido dito. Gosto tanto de ti que te podia amar. Sufoco nessas palavras tão tuas e o ar à volta pesa tanto, irrespirável.

O impulso é agarrar na caçadeira. Encosto o cano comprido à tua cabeça, olhas-me como se soubesses o que vou fazer e sorris, sem nunca parares de falar. O som do disparo preenche-me as mãos, ainda a tremer, mas não é suficiente para abafar a ladainha desconcertante do condutor. Rapidamente aponto-lhe a arma e disparo novamente, como se não soubesse fazer outra coisa O estranho homem permanece imóvel e a voz perturbante continua a ecoar por todo o lado. Apercebo-me que nunca o poderia calar: não passa de um manequim de loja dos anos 60, é uma cassete que me fala. Stop. Finalmente o silêncio.

Lembro-me de olhar para ti mas, claro, já não estás comigo. Ao meu lado, uma imensidão de pequenos vidros coloridos ocupa o que já foi o teu lugar. Agarro num deles e encosto-o à janela, a luz reflecte em mim aquilo que já foi toda a tua beleza. Tiro do bolso um minúsculo saco vermelho e guardo tudo o que restou da nossa história, encho-o com os vidrinhos e, sempre que pego num, corto o dedo. Irónico, ser o meu sangue a unir o que sobrou de ti.

Na imagem a seguir, estou numa estrada que dificilmente terá fim e pela qual avanço, a pé, como se tivesse um destino. Numa das mãos, um anel. Na outra, aperto com força o saco vermelho. Ao fundo lê-se “route 66″.

 

Posted by bride in 23:58:50 | Permalink | Comments (2)

Wednesday, June 27, 2007

ah pois é…

 ”Marriage is just a way of getting out of an embarassing pause in conversation.”

(from Four Weddings and a Funeral)
Posted by bride in 23:22:04 | Permalink | Comments (1) »

Tuesday, June 26, 2007

Sobre a Neura I

A Neura é um estado de alma!

Aqueles que estão familiarizados com esta faculdade de alguns seres, sabem que jamais, em tempo algum, se devem “meter” com alguém que esteja sob o seu efeito.

A Neura é diferente da neurose, é diferente da agitação, é diferente da raiva; a Neura é muito pior que isso, é perder totalmente o controle do corpo e da mente e “atirar” para tudo o que é lado.  

Quando uma pessoa, quer seja por acidente quer seja premeditadamente, se intromete no caminho de um outro que esteja com a dita cuja arrisca-se a ser enxovalhado, mutilado ou a  não querer voltar a ver aquele ser. Mas, sejamos claros, quem está com a Neura avisa (é um principio de ouro para qualquer “neuroso”) portanto, o outro arriscou e levou.

Esta é apenas uma primeira abordagem. Futuramente aprofundarei melhor o tema.

 

Posted by moonlight in 17:39:03 | Permalink | No Comments »

manhãs.

quero dizer-te : não morras.

nem me digas quem és, quem foste, como sabes

 a língua que se fala sobre a terra.

ao lume lanço

 toda a vontade de viver, ser vivo, 

 a cautela do ar, ardendo em torno.

 passarei, terás passado em mim, só quero 

 dizer-te : não morras nunca, agora, nunca mais.

(antónio franco alexandre)

 

 Há dias em que acordo a precisar de um poema.

 

Posted by bride in 07:44:38 | Permalink | No Comments »

Saturday, June 23, 2007

roxanne

 

Falta-me isto. Will you meet me in Buenos Aires?

 

Posted by bride in 01:23:08 | Permalink | No Comments »

Friday, June 22, 2007

a minha júlia

A júlia aparece quando menos se espera. Amiudadas vezes, enquanto me dedico ao sofá e hesito entre o comando e o sono, a júlia visita-me. Traz consigo um cesto de verga, gasto pelas viagens, cheio de nêsperas. Diz que gosta de as comer sempre que anda de autocarro. Outras vezes acompanha-a uma pequena caixa de cartão, com duas ducheses compradas numa pastelaria no Cacém, junto à saída do comboio. Diz-me que são bolos finos, bolos que só as senhoras sabem comer e apreciar. Porque em Angola os bolos são todos feitos com água e farinha: é preciso ter-se vivido em África para perceber o valor e a importância da duchese.

E assim fica, junto a mim, a deliciar-se ora com as nêsperas já maduras, ora com patisserie europeia, enquanto me fala sobre o curso de esteticista que está a tirar. Diverte-me com as suas observações , enternurece-me com a sua ingenuidade, arrebata-me aquela pureza, tão genuína, tão dela. São momentos tão sinceros no que têm de delirante, tão íntimos no que têm de partilhado, tão genuinamente nossos. Rendo-me a cada instante. Como não gostar da júlia?

Posted by bride in 03:02:29 | Permalink | No Comments »

Thursday, June 21, 2007

A mulher do chapéu branco

 

White Hat

Alex Katz

1979

A mulher do chapéu branco aproximou-se de mim. Não fui capaz de encarar o seu rosto, vislumbrei-o através do reflexo da porta envidraçada e quase que posso garantir que esboçou um sorriso. Ela permaneceu cerca de 30 segundos atrás de mim e depois partiu.

Esta mulher é comparável a um sonho recorrente, com a pequena particularidade que é real, que os nossos encontros existem mesmo.

Sempre que nos encontramos estamos os dois desacompanhados, solitários na nossa própria existência. Não marcamos dia nem hora, não trocamos uma palavra, não nos olhamos nos olhos (excepto hoje através do vidro), mas sentimos a presença do outro (eu sinto que ela também sente) com uma intensidade tal que nos faz sentir vivos. Sei que está presente quando identifico o seu carismático chapéu branco. Contrario o instinto e sento-me de costas, por vezes é ela que chega depois, e eu sinto-a a chegar.

Hoje aproximou-se de mim  esboçou um sorriso e partiu.

Será possível, algum dia, juntar um chapéu branco com um blaser preto?

Posted by moonlight in 21:39:05 | Permalink | No Comments »

o gorila albino

Em barcelona é fácil perdermo-nos nas ramblas, nos delírios estéticos de gaudí, na imensidão de montjuic. Mas, claro, a cidade não se esgota nos clichés fotográficos e a diversidade de ofertas é um privilégio. A mim, coube-me o encantamento de saber que no zoo de barcelona vivia o único gorila albino do mundo: floco de neve. Desenvolvi durante dias uma obsessão pelo animal e, desassossegada, insistia na vontade de o ver de perto. Contigências de viagens sem datas, e dos companheiros das ditas, tornaram impossível que eu concretizasse a urgência desta vontade. Regressei convicta de que na próxima ida à catalunha nada me impediria de o conhecer.

O floco de neve morreu passados dois meses. E eu ainda não voltei a barcelona.

Posted by bride in 16:48:08 | Permalink | No Comments »

Wednesday, June 20, 2007

O que o Hoje provoca no Amanhã

Hoje, não reconheço os teus dedos sobre os meus.

Hoje, acordo sem sentir o teu cheiro ao meu lado.

Hoje, ouço o silêncio que a tua ausência deixa pela casa.

Amanhã será tarde demais para esquecer.

 

Posted by moonlight in 23:40:49 | Permalink | No Comments »

Intelectualidades Patrimoniais # 1

Foi hoje noticiado que a UNESCO increveu dois bens portugueses na “Memória do Mundo”.

A saber - O Tratado de Tordesilhas e o Corpo Cronológico, ambos na nossa Torre do Tombo (acima representada)

Sinto-me orgulhoso de termos duas tão honrosas representações, contudo não entendo uma coisa: depois dos séculos XV e XVI, não existiram em Portugal quaisquer acontecimentos documentados que tivessem a mínima importancia para o nosso século XXI?

Nota: Tratado de Tordesilhas - assinado em 1494 entre as coroas de Portugal e de Castela, e que definia a partilha do Novo Mundo entre os dois reinos.

Seria rídiculo estar aqui a explicar o que é o Corpo Cronológico, uma vez que é de conhecimento comum, qualquer míudo de 10 anos sabe.  

Posted by moonlight in 02:27:45 | Permalink | Comments (1) »