Adjectivação da existência
Procuramos todos os dias uma nova palavra que possa adjectivar a existência, mas esquecemo-nos que um adjectivo por si só não basta para percorrer um caminho. Há que estar predisposto a andar sobre vazios.
Procuramos todos os dias uma nova palavra que possa adjectivar a existência, mas esquecemo-nos que um adjectivo por si só não basta para percorrer um caminho. Há que estar predisposto a andar sobre vazios.
É cáustico, e ao mesmo tempo deslumbrante.
É sincero, e ao mesmo tempo impossível.
É simples, e ao mesmo tempo acarreta toda a complexidade do mundo.
É profundo, e ao mesmo tempo dizimado em pequenas partículas.
É nas diferentes vertentes das vossas existências que vos reconheço conteúdo.
As palavras saltam-nos por entre os dedos, como se tomassem a forma de qualquer coisa que possa um dia vir a existir.
Correm-nos pelas veias sem nos explicar o porquê da sua insistência ao longo dos tempos, o porquê das suas ridículas curvaturas, das suas vãs sensibilidades e lá continuamos nós inebriados por mais uma fórmula que nos cadenciará até mais um espasmo facial.
Tenho em mim perigosas ligações em Z.
As portas trancadas nunca serão um problema, são somente mais uma travessia nossa.

Waiting de Thierry Ona
Sete horas de um qualquer final de tarde de Verão. A batalha entre o dia e noite manifesta-se ao fundo, pela mancha de luminosidade paralela aos olhos que se erguem desse corpo recostado numa cadeira confortável, ordenadamente colocada ao centro de um terraço silencioso.
Lentamente, suavemente, aproximo os meus dedos dos teus e ali os deixo a pairar sobre a tua mão. Permaneces com o olhar fixo nas tuas memórias esperando por um futuro que nunca surgirá. De um outro lado, as minhas memórias parecem não existir. Evaporam-se para fora do meu corpo, qual cigarro a sucumbir por entre os dedos. Sinto o vazio de estar tão perto de nada ser, o conforto de nada querer, a ilusão de tudo poder esquecer.
Somos dois paralelos atravessados por demasiadas linhas tortuosas. Somos a subtração um do outro. Somos o desvio que não tem um término.
Suavemente, lentamente retiro as minhas mãos. Desfaço o percurso percorrido e volto para de onde vinha.
A noite surge vitoriosa.
Rodando ligeiramente o rosto encontras-me na cadeira ao lado da tua e questionas:
- Esperamos pela manhã?
Ao que respondo:
- Esperamos.
Como esperantes somos um só, e só isso esperamos.
Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia
de súbito em profundas minas, a memória
das suas mais lonquínquas galerias
extrai aquilo de que é feito o coração.
Ficávamos no quarto, onde por vezes
o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior
paixão que pelo coração se chega à pele.
Não há então entre eles nenhum desnível.
(Luís Miguel Nava)
Como sempre me conheci neste corpo, a opinião que se segue é, justificadamente, arbitrária e pouco rigorosa. Feito o esclarecimento: é preciso que um homem confie muito para usar uma camisa cor de laranja.
Que confie muito em si de modo a evitar os clássicos branco/preto que tão bem imprimem discrição à figura. Ou mesmo os azuis, tão pouco comprometedores. Mas também que confie o suficiente nos outros, de forma a que não haja lugar ao desconforto de ostentar um tom que se torna ruído (e esta palete cromática vai desde o amarelo canário ao vermelho-bordeaux).
Mas também é preciso ser-se mulher para entender o poder afirmativo da camisa laranja. E confiar num homem que a use.
Durante muitos anos a proximidade fisica que nos unia tinha uma matriz que nos completava, nas brincadeiras, nos amúos, nas rebeldias, na vontade de te irritar ou de te acarinhar.
Hoje na distância que nos separa, para além do sangue, une-nos o amor que semeamos ao longo das nossas vidas.
Sinto-te perto de mim em cada dia, ignorando todo o mar que nos afasta.